RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Sábado, Outubro 28, 2006

INTERMÉDIO

Entre o silêncio e o vazio
guardo meus segredos carnais
como segmentos de existência
onde deposito indefinições.

Entre as palavras e a vida
seguro meus cabelos curtos
e me levanto pra fora do caos
onde afogo meus segundos.

Entre mim e a parede de vidro
um corte da face rarefeita.

(L. F. Calaça | 29/10/2006)




PS.: Vejo agora que o ano está acabando.

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Terça-feira, Outubro 17, 2006


Clarice Lispector


A LUCIDEZ PERIGOSA
(Clarice Lispector)

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



PRECISÃO
(Clarice Lispector)

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

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Domingo, Outubro 15, 2006

XXXVI Reunião Anual de Psicologia
Sociedade Brasileira de Psicologia
25 a 28 de Outubro de 2006
Universidade Federal da Bahia (UFBA) - Salvador


Sessão coordenada 10



Psicologia do Desenvolvimento (26/10 das 15h30 às 17h50 na sala 107 - 1° andar PAF 01)
Construções em espaço de fronteiras: poética e memória

Coordenador: Ana Cecília de Sousa Bastos (Universidade Federal da Bahia)

- Orientação para o futuro e poética através de histórias de famílias de Novos Alagados, Bahia.
Ana Cecília de Sousa Bastos (Universidade Federal da Bahia)

- A ornamentação como uma manifestação poética do self dialógico
Elaine Pedreira Rabinovich (Universidade Católica de Salvador / Universidade de São Paulo)

- A palavra é o lugar das coisas no mundo
Denise Coutinho (Universidade Federal da Bahia)

- Menino presente: fragmentos de infância e aspectos do desenvolvimento na poética memorialista de Boi Tempo, de Carlos Drummond de Andrade
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
(Universidade Federal da Bahia)



(OH O MARKETING! ESTAREI LÁ APRESENTANDO MINHAS DIVAGAÇÃO PSICOPOÉTICAS. HHEHEHEHEHEH)



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Quinta-feira, Outubro 12, 2006

ELO

pouco nos resta depois
que os ossos rangem nas dunas
nas perdidas fileiras em chamas
de um desejo lágrima
pousada em poça no chão magnésio
como atando os nós com duplas pontas
de fios de cabelo partido
e rangendo os dentes no frio calado
noite sonolenta em chão de verniz
meus beijos mãos sobre a pele
mão sobre o olhos azuis
silêncio na sala ao lado
pequenas miragens
pequenos amores
pequenos olhares
pequenos...
pequenos...
átomos


...em debandada.


(L. F. Calaça ! 12/10/2006)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:49 AM Comments:



Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Nu couché de dos (Reclining Nude from the Back), Modigliani (1917)

AS ESSÊNCIAS DA LUA

quero noites, inteiramente nuas, inteiramente suas
quero noites de corpo atravessado pelas sombras do vidro
quero noites de lua mundo em chamas, despindo-me
quero noites cujos sonhos não precisem de suspiro
quero noites de carne, sexos e ilusões.

(L. F. Calaça | 05/10/2006)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:12 PM Comments:



Domingo, Outubro 01, 2006

HISTERIA

OS RATOS
OS RATOS roem, minhas pálpebras que tremem e tremem e tremem sem que eu saiba o porquê, mas eu sei eu sei eu sei.
OS RATOS como os homens comendo minhas entranhas cortinas feupudas de loucura tranquila parede de vidro fosco, tosco retalho.
OS RATOS freudianos fraudulentos transmutados nas pernas rigidas hereditárias passadas entre mulheres calvas parasitando a mente epiléptica do homem invertido pele e poros.
OS RATOS histéricos gritando guinchos de carne-sangue. Memórias fantásticas do corpo explosão nuclear de sentidos de idéias de pensamentos de excessos de delírios de orgasmos contidos para não virar espetáculo de procissão do Santo Ofício.
OS RATOS os gatos pretos os cavalos galopantes sargitários embrionários das lembranças não realizadas do desejo encarnado pecado puta bruxa miseravelmente rebaixada à condição sub-humana de apaixonamento projeção neurótica. Conversão, convertido, trafegando no inverso metafísico da identificação.
OS RATOS psicografados parapsicanalíticos. Egun Exu Tranca Rua grito de Iansã MISÉRIA. Os ratos e seus recortes kafkianos escavando túneis inconscientes nas grafias enlouquecidas grafológicas de dores intestinais e hemorróidas estranguladas no asfalto vítreo das elipses eclipses megalomaníacas.
OS RATOS e o homem de camisa azul petróleo. Sexo latejando na cãibra insone das noiutes masturbadas, dos dias reprimidos por puritanismo judaico-cristão nietzscheano niilizado.
OS RATOS descrevendo os caminhos e as órbitas de meus olhos óculos arranhados pekla unha-garra envenenada da fera felina dentro de meu cérebro.
OS RATOS desdobrando as dobradiças que rangem no tique-taque relógio de vidro.
OS RATOS e seu contorno no espelho.
OS RATOS e o rosto.
Os rastros.

(L. F. Calaça | 25/09/2006)

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OBSESSÃO

enquanto as noites sufocam
meu grito frio e mudo
meu corpo coxas desejo
desfazendo-se entre e sem.

sorpo sm ossos, minando
a conta-gotas meu sangue
minhas víceras romanticas
o outro à margem do ciclo.

segmentos, dores sem palavras
minha loucura dispersa, disforme
quero griutar espe poema-sintoma
da minha alma falange-lua

linguas dispersas, amores-figura
minha necessiadade única
de um corpo fantasmático
imagem, miragem, obsessão.

(L. F. Calaça | 17/09/2006)

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REDENÇÃO

Minha pequena purificação
palavras atropeladas no desespero morto
das coisas submersas, soterradas.
Devorando estou, palavras moribundas
de um desejo transpassado pelo tédio.

As correntes arrastam seios ressecados
nos segmentos metafísicos das palavras.
Delírio de seres subalternos à memória,
presente congelado na espera interminável
daquele dia que foi-irá sem consoantes.

Retorno atravessando a esquina apagada
sem sombra ou rastro. Humanismo azulado.
Sei de um pessimismo fascista, atrasado
na encruzilhada do ópio-ódio-ócio.
Se escrevo agora é que as palavras são inúteis.

Minto, no entanto, com um sorriso lateral
daquele que me lê e arregala as pupilas.
Já passou-se o tempo da palavra-prêmio.
Minha vida me chama e me entrego
mudamente, lentamente, sentindo o TUDO.

(L. F. Calaça | 11/09/2006)

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